Friday, March 17, 2017

Carta ao meu Avô

Chegou a hora, meu querido Avô.
O pêndulo do relógio da sala de jantar parou, é o teu tempo de partir.
Guardemos os talheres, fechemos as janelas, apague-se a luz.
A mesa estava posta e a conversa ficou a meio, eu sei, mas é a vida.

Vamos, eu guio-te pela mão, percorramos juntos este longo corredor uma última vez.  Este corredor que viu os primeiros passos de tantos netos e bisnetos, que foi palco de efusivos jogos de futebol, corridas desenfreadas, de infinitos passeios solitários. Este corredor que foi galeria de arte, museu de memórias e arquivo dos traços coloridos na nossa infância.

[Podes não ter percebido isso, mas eu lembro bem o orgulho do dia em que finalmente vi pendurado o meu primeiro desenho, ali no mural dos mestres, junto das obras dos meus irmãos e primas. ]

Anda, vamos. Despedimo-nos da despensa, dos pacotes de chocolates e das bolachas que ficarão tristonhamente por abrir, são os últimos da reserva que infalivelmente mantinhas para alegria dos netos.  Da casa-de-banho, tomas na mão umas últimas gotas do teu Brut, o cabelo impecável a condizer com o fato, exactamente como nas fotografias. As pernas já não te pesam, as costas endireitam-se, o teu passo é firme novamente até à sala de estar.

Olhamos em volta, a sala cheia de fotografias, hoje todos esses sorrisos cedem por momentos às lágrimas enquanto se despedem de ti. Pego num retrato, sou eu com uns 5 anos, cheio de bochechas a fazer um desenho. Relembras-me que alguém um dia disse olhando para essa fotografia e para essas bochechas “este  vê-se logo que é seu neto, tem mesmo a sua cara, senhor Gastão”.  E de algum modo tinha.

Vá, sequemos as lágrimas, é hora da última viagem. Preparei-te um farnel, um desses pães que tu gostas, com geleia.  Eu tiro o trinco à porta, desçamos as escadas, o carro está à espera. O teu fiel Citroen BX veio prestar-te guarda de honra,  podemos ir. Se preferires, vai antes num desses barcos do Campo Grande em que passeávamos por tardes de Domingo quando fazia calor, anda, toma os remos, aproveita a brisa.

O passeio à Ericeira para ir comer os ouriços terá que ficar para a próxima.

Havemos de voltar a atirar pão aos patos no Parque Eduardo VII.
Havemos de revisitar a tua colecção de selos e completar as colecções de moedas.
Havemos de voltar a ir ver a bola ao antigo Estádio da Luz, quando te der jeito.
Havemos de ir a Cabanas passar férias, relembrar as inesquecíveis fotografias de um eterno Verão.
Havemos de ser da mesma idade, os dois, e relembrar num abraço cúmplice e terno o tempo da nossa infância.

Boa viagem, meu querido Avô.



Thursday, November 11, 2010

Carta ao Mateus

Olá Mateus. A estas horas estarás a dormir as tuas primeiras de sono no mundo, embalado pela respiração serena da tua Mãe, uma respiração completa como um vento quente, cheio de vida. O teu Pai estará agora a tentar descansar das emoções do dia, andando às voltas da cama acordado pelo bater do seu próprio coração, certamente tão acelerado como o teu, ansioso por conhecer o mundo.

Nasceste hoje e trouxeste contigo um dia feliz, o dia mais feliz da vida dos teus Pais. Um dia que tu próprio decidiste que seria este 11 de Novembro, e que os teus Pais aguardavam há muito mais do que nove meses. Sabes, o sonho de ti nasceu há muito tempo, talvez até no tempo em que a tua Mãe brincava às bonecas, contando-lhes histórias e conversas imaginárias do mundo dos crescidos.

O teu Pai, como qualquer rapaz, terá despertado mais tarde para a ideia de ter um filho, afinal de contas ser pai é coisa de adultos. Os rapazes, como tu Mateus, gostam de jogar à bola, às lutas e aos cowboys - e por mais que cresçam serão sempre crianças.

Mas o desejo de te ver chegar chegou um dia, e tu decidiste tomar o teu tempo. Talvez seja um sinal precoce de preguiça, ou de teimosia, não importa. O caminho por que te demoraste pode ter sido longo, mas é uma história antiga já, e com um final feliz. E aprenderás durante a vida que muitas das suas maiores alegrias são as que mais custam a conquistar, que os sonhos ganham-se pela persistência dos que ousam nunca desistir.

Nasceste hoje, e estivemos todos lá, até a tua tia Constança veio de Espanha com a Mina só para te ver. Estiveram os teus avós, os teus tios e os teus primos, que passaram o tempo a jogar às escondidas e aos abraços na cafetaria do hospital, à espera de te ver. Estivemos todos juntos, como estivemos sempre. Antes de te ver, vi-te no sorriso transbordante do teu Pai, uma expressão nova no olhar, a alegria de um alpinista no topo de uma montanha.

Foi uma viagem intensa a dos teus Pais, feita de altos e de baixos, de lágrimas que hoje são todas de felicidade. Por ti Mateus, pela tua viagem, uma viagem que acabou de começar.

Tuesday, March 10, 2009

Secret Thoughts in History

A história das civilizações é feita, entre outras coisas, das frases que acompanharam os grandes feitos e invenções dos homens através dos tempos - "A small step for man, a giant leap for mankind" - esse tipo de coisa.

Mas ninguém se lembra do que passou realmente na cabeça das grandes personagens da história, esses pensamentos secretos que nunca chegaram a proferir. A bem da verdade histórica, aqui estão algumas delas:

"Ou muito me engano ou chegámos à Madeira"
Cristóvão Colombo

"Será que aguento o peido? Ups, já não"
Mona Lisa

"Esta porra desta peça nunca mais acaba?"
Abraham Lincoln

"Se calhar não devíamos ter comido aquelas bagas, estou-me a sentir esquisita"
Irmã Lúcia

"Acho que vou só dormir 5 minutos e pôr isto no automático"
Edward J.Smith, capitão do Titanic

"Houston, isto é só calhau"
Neil Armstrong




Saturday, January 31, 2009

Quinta Carta, sobre estes Nove Meses

Estás a cerca de um mês de chegar. Desde que soubemos de ti, no Verão passado, passaram-se oito meses já, intensamente vividos como uma primeira descoberta.

Antes de nasceres para o mundo, já preenchias o nosso, tomando presença habitual nas conversas de família, de amigos, o teu nome sempre evocando uma ternura próxima, vontade de te ver chegar. Habituámo-nos a ter-te sempre connosco e começámos a amar-te à medida que ganhavas forma no corpo da tua mãe. Passámos a contar o tempo em semanas, uma contagem decrescente à tua espera, espreitando de vez em quando para o teu pequeno aquário para ver se estavas bem e tentar saber um pouco mais de ti.

Quando cresceres não terás memória destes meses, das festinhas que recebeste de todos, das histórias que a tua Mãe te contou com uma mão sobre ti ou dos muitos pontapés com que lhe respondias, dando sinal de uma energia inquieta, uma curiosidade precoce de conhecer o mundo. Mas guardarás quem sabe uma memória longínqua e vaga das músicas que pusemos para ti, quando te adormecíamos com a caixa de música ou quando tentávamos cativar-te desde cedo para a melancolia doce de Leonard Cohen. Talvez fique gravada em ti nessa voz grave de veludo a memória de um certo conforto familiar, um embalo de calma a que quererás regressar nas noites mais frias.

Nesse tempo que passou entre semanas fomo-nos preparando para te receber, tivemos aulas até para aprendermos a cuidar de ti. Preparámos o teu quarto, pintando-o de cores vivas, e na porta desenhámos uma árvore de corda para nos seus ramos pendurarmos fotografias da tua família, uma forma de todos te darem as boas noites. De mães, irmãs e avós recebemos conselhos para os preparativos, e até os teus primos mais pequenos deram uma ajuda, emprestando-te o teu berço, a banheira e as primeiras roupas que vestirás. E a tua Mãe, mesmo com a barriga a pesar nos seus movimentos, continuou a costurar, a pintar, a serrar e a martelar, construindo com a sua imaginação o cenário dos teus primeiros sonhos.

Nestes nove meses fomos também começando a sentir a mudança nas nossas vidas que chegaria contigo. Seguramente, nada será como antes e passará a haver um "antes" e um "depois" de ti, como uma ponte que atravessamos e que se derruba à nossa passagem, permitindo apenas olhar a outra margem à distância. Mas estamos onde quisemos chegar. Chegamos juntos a esse lugar novo onde um homem e uma mulher passam a ser "Pai" e "Mãe", e tu meu filho uma nova razão para nos maravilharmos com o mundo.

Vem, estamos prontos para te receber.


Monday, January 19, 2009

George, the Plumber


















A História reserva-lhe o título do pior presidente de sempre dos Estados Unidos da América, um homem inculto e incompetente demais, um fantoche facilmente manobrado, um testa-de-ferro na mão dos falcões da guerra. Reformado e resignado a um quase anonimato, com o tempo George W.Bush deixará de ser o homem mais odiado do mundo, abandonando a posição de saco de pancada universal em que se tornou ao longo dos seus dois penosamente longos mandatos. Voltará a ser simplesmente George, o tipo dos copos e das piadas fáceis, rei dos barbecues de domingo e das pescarias de fim-de-semana.

Amanhã, George W. Bush deixará de ser o homem mais poderoso do mundo. Mas alguém acredita que alguma vez tenha sido?

Tuesday, December 23, 2008

Monday, December 08, 2008

Quarta Carta, sobre o teu Pai

(escrita pela tua Mãe)

Ao fim de três cartas, meu querido filho, já deves ter absorvido na profundidade do teu ser, o quanto teu pai é sensível, puro, completo.

Sim, agora é a tua mãe que te escreve ... para que possas ter nestas cartas, um pouco do teu pai, aos olhos da sua mulher que o ama, incondicionalmente, muito para além do que o tempo consegue contar.

O teu pai foi o último dos cinco filhos da Margarida e do Fernando. Depois da Marta, Constança, Rodrigo e Gonçalo, veio o João, teu pai, de braços gordinhos prontos a abraçar o mundo e olhos grandes, mais tarde emoldurados por sobrancelhas revoltas que tornariam o seu olhar ainda mais intenso, convidando-o a ver mais além.

Entre Portugal, Suíça, Bélgica e de novo Portugal, o teu pai fez-se Homem, experimentando com a ligeireza de uma pessoa “intelixente” os desafios da escola, faculdade e trabalho. E se já esses feitos são motivos de orgulho, vais ver que mais inspirador ainda é a vontade insaciável do teu pai de correr atrás do que o desperta e consegui-lo, tão simplesmente conduzido por esse querer arrebatador de viver intensamente os dias que se sucedem continuamente, no misterioso descortinar desse tempo universal. Foi assim com a viola, que dedilha com uma intimidade secular, foi assim com a fotografia, que domina não por cursos mas pela sensibilidade do seu olhar, foi assim com a cozinha gourmet, que reinventa a cada jantar numa orquestração de ingredientes que mistura por intuição olfactiva ... foi assim comigo, como um livro que sempre soube ler, mesmo antes de ter sido escrito...

Cruzei-me com o teu pai aos 26 anos, e somos a prova de que o amor se pode revelar à primeira vista, deixando mensagens secretas no ar como um enigma que se convida a desvendar. Nós deixámo-nos guiar por essas pistas sussuradas e chegámos aqui, com uma Vida plena de viagens, de descoberta um do outro e do mundo, com uma Vida brindada com a família e amigos, com uma Vida que está prestes a prolongar-se em ti. Temos por isso à nossa frente tanta mais Vida para aproveitar, tanto horizonte por perseguir, agora a três ...

Vais adorar descobrir no teu pai o parceiro para uma boa brincadeira inventada, o orgulho de ser benfiquista, a vontade de sorrir e fazer rir, o gosto por desafiar o desconhecido. Vais aprender com ele a consciência de que a vida tem de ser reinventada a cada dia e que o destino se percorre antes de mais pela nossa mão e olhar. As palavras com o teu pai não se desgastam mas ganham história e sentido crescente. Umas delas, verás, é o amor.

Bem vindo à Vida Gastão.

E da mesma maneira que eu e o teu pai nos revemos na nossa família e nos sentimos felizes por poder crescer com e à volta dela, espero que sintas também essa vontade de nos ter por perto e de partilhares connosco as tuas próprias descobertas. Nós estaremos sempre por perto, prontos a brindar contigo à tua Felicidade.

Thursday, November 27, 2008

Terceira Carta, sobre a tua Mãe

A tua Mãe chama-se Filipa. Nasceu há trinta e dois anos, filha do Manel e da Fátima, teus avós maternos, que na altura viviam em Portimão, no sul de Portugal. Chegou com a Primavera, quando no Algarve os primeiros dias de Sol arrancam à terra a brisa quente que traz consigo uma promessa de amendoeiras.

Em bebé era um pequeno buda de bochechas gordas e passos redondos, aprendendo sobre o triciclo a dominar a força criadora das suas mãos e a energia inquieta das suas pernas cheias de refegos. De franja curta e sorriso reguila para as fotografias, o bebé cresceu e fez-se uma menina bailarina de gestos delicados, dançando pela infância ao som circular de uma caixa de música.

A bailarina cresceu também, e fez-se mulher guardando nos gestos toda a leveza feminina da dança. Aluna exemplar, entrou pela vida de adulto num trabalho como deve de ser, mas cedo sentiu que queria mais para si do que a segurança da previsibilidade. Tornou-se artista, transformando a monotonia do barro num mundo mágico de tartarugas e peixes, meninas que brincam de mãos dadas pela rua e bailarinas que esperam o amor ao cair das estrelas. Painéis, esculturas, candeeiros, cinzeiros ou puxadores nasceram das mãos criadoras da tua Mãe e estão hoje espalhados em casa desses muitos amigos e anónimos que levaram consigo um pouco dessas memórias do barro.

Eu e a tua Mãe acabámos por nos encontrar pelas coincidências próprias de tudo o que parece estar escrito, como se um caminho estivesse já desenhado para nós e só tivessemos que o percorrer. Fizemos um mundo nosso sem precisar de palavras, pressentido desde cedo que o futuro nos pertencia e nos convidava a sonhar, sem pedir licença.

Conhecemo-nos vivendo a dois e em cada descoberta fomos renovando essa certeza que o caminho era mais longo e havia muito para ver. Fizemos a nossa casa na Estrela, um refúgio à nossa imagem decorado a histórias de viagens e segredos guardados sob um abraço dourado de Klimt. Percorremos o mundo à procura de mais estrada, atravessámos fronteiras perseguindo a linha do horizonte, passámos uma vida inteira um com o outro, juntos ao longo de oito meses.

Com o tempo conheci-a melhor, o seu modo simples de ser e de nos fazer sentir bem. A tua mãe gosta de pessoas, e essa é apenas uma das razões que faz com que gostem tanto dela. Tem uma sensibilidade invulgar para as emoções dos outros, um genuíno interesse em ajudar que é tanto a fonte da sua força como da sua vulnerabilidade. Gosta de conversar, seja de assuntos sérios do nosso mundo ou de trivialidades de criança, e tem dentro de si mesma a sabedoria adulta e a criança eterna.

Vais adorar conhecê-la. A primeira vez que vi a tua mãe, pressenti nela algo de maternal, uma ternura que convidava a ficar. Um olhar confiante e sorridente, como uma casa de fundações seguras e janelas abertas para o mundo. Uma beleza doce, serena como uma lareira a crepitar.

Espero que um dia possas amar alguém como eu amo a tua Mãe, meu filho. É algo único, raro, e precioso, um amor do qual tu também serás testemunha. Nasces de um amor intenso, novo como a manhã que todos os dias se renova, maduro como um vinho que toma o gosto da sua história. Um amor destes, tem sempre espaço para mais um.

Saturday, November 15, 2008

Segunda carta, sobre o teu Nome

Que enorme e estranha responsabilidade, a escolha de um nome. O nome pelo qual seremos conhecidos toda a vida, que para nós se confundirá até com a nossa própria noção do "Eu", é afinal escolhido pelos nossos pais antes ainda de nascermos, quando toda a nossa personalidade é ainda um mistério insondável, uma essência em formação.

Quando nos conhecemos, eu e a tua Mãe, como todos os casais apaixonados fizemos planos de futuro, um futuro ao qual já pertencias sem nós sabermos, e projectámos os nomes que daríamos aos nossos filhos. Vicente, Tomás, Beatriz ou Vera eram alguns dos nomes desses meninos e meninas que, ainda sem corpo ou alma, ganhavam forma na nossa família imaginária.

E um dia soubemos que vinhas a caminho. Na tua segunda ecografia mostraste-nos orgulhosamente que eras um rapaz, e desde logo soubemos também o teu nome: Gastão.

Um nome diferente, é certo, pouco comum até nos dias de hoje dirão alguns. Mas um nome com história também. A história particular do teu nome nasceu muito antes de ti, no avô do teu Pai que para ti também será o Avô Gastão.

O teu Avô nasceu há muito tempo atrás, na década de 1920, um tempo antigo em que não havia televisão e as pessoas passavam os serões a conversar e a ouvir as notícias na rádio. Eram ainda poucos os carros que atravessavam as cidades, e os primeiros aviões começavam a cruzar os céus para estranheza dos pássaros.

A muita coisa assistiu o teu Avô Gastão: à guerra e à paz e a outras aventuras dos homens, histórias próximas e distantes que um dia terá oportunidade de te contar, e às quais terás que prestar muita atenção. Afinal, há muita sabedoria em quem viveu mais anos que nós, quem viu nascer tudo o que nos é familiar e ouviu em primeira mão as notícias que agora se escrevem nos livros de história.

Algumas das minhas melhores e mais presentes memórias de infância foram passadas com o teu Avô Gastão. Sempre foi o meu companheiro de brincadeiras. Foi o Avô que sempre conheci, o meu único Avô por razões diferentes da vida, que desde pequeno me acompanhou e me levou pela mão nos seus (nossos) passeios de fim de semana.

Lembro-me como se fosse hoje das idas ao Campo Grande para andar nos carros a pedais ou das idas ao Estádio da Luz, duas horas antes do jogo e com um farnel preparado, gloriosas tardes de Domingo em que aprendi a ser do Benfica e a conhecer de cor os nomes dos jogadores. Lembro-me do movimento que o seu Citroen BX fazia a levantar as rodas antes de arrancar, os seus muitos objectos de antiquário caseiro acompanhados de curiosas explicações, ou das longas e bem arrumadas colecções de selos de países desconhecidos que exerciam um estranho fascínio em mim. Lembro-me de muitas pequenas coisas, como o prazer que sempre teve numa boa refeição, a forma única que tinha de nos fazer cócegas até chorar a rir, ou de expressões muito suas como "tufa!", "tou, tou!" ou "levado da breca".

No mundo dos adultos e das suas regras, às vezes difíceis de perceber, o Avô Gastão nunca teve filhos, pelo menos de sangue e cartório notarial. Mas a verdade é que teve filhos e muitos netos, uma família inteira que sabe que ele é um homem bom, generoso, que sempre gostou de uma boa conversa e de uma boa história. Um homem que sempre gostou de pessoas e abraçou todos esses filhos e netos como se fossem seus, como o foram de facto.

O teu nome, Gastão, é também uma homenagem ao teu Avô e ao que ele representou para o teu Pai. Mas não vejas nele o peso da responsabilidade, antes um símbolo de continuidade. Uma forma de dizer que a família não é uma convenção mas algo de vivo, feito das emoções e do amor que as alimenta.

Mas para lá de tudo isso, o teu nome é uma tela em branco. Quando ouvirem o teu nome, as pessoas atribuir-lhe-ão o significado que tu próprio lhe deres através de tudo o que é único em ti, o que tiveres de bom e de imperfeito, as tuas virtudes ou defeitos. O que tiveres de generoso e de sonhador, a tua sede de descoberta, o teu olhar sobre o mundo, tudo isso será condensado no estandarte que usarás como teu nome, Gastão.

Espero que gostes, meu filho. Mas afinal, foste sempre tu que escolheste o teu nome.

Friday, November 14, 2008

Primeira carta, sobre o Mundo que te espera

Ainda não nos conhecemos, por isso deixa-me antes de mais apresentar-me: tenho trinta e um anos (quase trinta e dois) e sou filho de um senhor chamado Fernando e uma senhora chamada Margarida. Nasci aqui mesmo em Lisboa, Portugal, e aqui vivi quase toda a minha vida. Casado com uma mulher linda, Filipa, moro na Calçada da Estrela junto ao Jardim com o mesmo nome. Chamo-me João, mas ao longo da tua vida hás de conhecer-me mais habitualmente pelo nome de "Pai".

Teremos muito tempo para falar, mas queria já contar-te algumas coisas sobre o mundo que te espera. O teu quarto cá em casa tem vista para o pátio, com dois vasos de ervas aromáticas que pusemos junto à tua janela para conheceres desde cedo o mundo misterioso das plantas. Não é muito grande, mas será mesmo à tua medida nestes teus primeiros anos, com espaço suficiente para brincares pelo chão e para um berço que acolherá os teus sonhos inaugurais. Ainda não está pronto, mas tem já uma cómoda grande para guardares a tua roupa e um pequeno sofá para a tua Mãe te contar histórias e te alimentar a leite materno e doces canções de embalar.

O Bairro da Estrela que será a tua primeira casa no mundo é muito simpático, um bairro antigo de Lisboa onde a história da cidade se cruzará com a tua. O Eléctrico passa mesmo à nossa porta, certamente reconhecerás o som característico que o acompanha, uma estranha música feita de faíscas e ruídos metálicos que fazem lembrar os carrinhos de choque. Os sinos da Basílica, solenes como uma procissão, soam a cada quarto de hora e ecoam sonoramente pelas ruas cobrindo-as de um manto familiar, um sentimento de aldeia que atravessa a barbearia, o talho e os cafés marcando o ritmo da vida no bairro.

O Jardim da Estrela fica mesmo em frente, e será o teu recreio das horas vagas, um jardim enorme à espera dos teus passos iniciais onde poderás jogar às escondidas entre o coreto e as árvores centenárias sob a companhia cúmplice das estátuas. Descobrirás esse mundo cheio de vida onde as outras crianças vêm brincar, espalhando risos e campainhas de bicicleta pelo jardim, e também tu aprenderás a reconhecer as aves pelos seus nomes e hábitos particulares, a frenética agitação dos pombos, a curiosidade interessada dos patos do lago e o passo aristocrático dos pavões.

A cidade onde vivemos, Lisboa, muitos dizem que é uma das mais belas cidades do mundo, antiga e gasta como um retrato de família passado entre gerações, orgulhosa da sua história de descobertas mas ao mesmo tempo enérgica e vibrante como uma visão da modernidade. Entre o seu passado e futuro, é um lugar que sabe viver o presente, onde se está bem nos cafés e nos miradouros, onde ainda há fins de semana e fins de tarde sempre que quisermos tirar tempo para nós. Mesmo quando sentires vontade de conhecer mais mundo, Lisboa será sempre a tua casa, um porto de abrigo à tua espera com os seus cheiros e recantos familiares.

Sobre esse Mundo dos países e dos continentes, teríamos muito para falar, mas será melhor que o descubras com os teus olhos, conhecendo a cores vivas tudo o que existe para lá dos livros e dos mapas e de tudo o que ouviste contar. Terás tempo para o percorrer pelos teus passos, das cidades do futuro às antigas paisagens onde pára o silêncio, observando as gentes e os seus estranhos hábitos e aprendendo por ti próprio a compreender a diferença nos outros, uma sabedoria que te fará mais rico, e mais humilde também.

Certamente terei muito mais para te ensinar, e tanto para aprender contigo ao longo dos anos em que cresceremos juntos, mas temos tempo. Ainda não nos conhecemos, mas temos a Vida inteira pela frente.

Wednesday, November 12, 2008

Quarto com Vista

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Monday, October 20, 2008

Saturday, April 08, 2006

Parar para Viajar

Há algum tempo que não escrevo no blog. Não por preguiça, ou falta de entusiasmo. Apenas falta de tempo, por um projecto que me ocupou o último ano e que me ocupará os próximos 8 meses... talvez a vida inteira.

Vou parar, para viajar. Oito meses para dar a volta ao mundo, para ter a oportunidade de vê-lo com os meus próprios olhos, com tempo para mais do que apenas o descanso ocasional das férias. Tempo para que possa absorver, dar e receber em cada lugar, voltar diferente também, tempo para uma viagem que me deixe marcas e a certeza de que tudo fiz para merecer o tempo que me é dado.

A partir de 16 de Abril, podem acompanhar-me no blog
pararparaviajar.blogspot.com

Tuesday, February 07, 2006

O Regresso de Zorro

As mulheres compram roupa da mesma forma que procuram o homem da sua vida. Reparam nela, trocam olhares. Experimentam, mas não têm a certeza, vêem-na uns dias depois. Contam umas às outras, ando a namorar uma camisola. Os homens, claro, não têm pachorra para este ritual de aproximação, é tudo muito mais imediato e à primeira vista, vêem, experimentam, gostam, e se conseguirem levam-na para casa.

Os homens não gostam de ir às compras, ou pelo menos têm o bom senso de nunca o admitir. Mas a verdade é que gostamos de roupa, apesar do nosso vocabulário limitado não permitir que façamos realmente a distinção entre um pullover e uma sweater. Chamamos “kit” ao nosso conjunto preferido, porque tem muito mais estilo e faz-nos pensar que estamos a falar de mecânica. Temos a nossa t-shirt da sorte, a que insistimos em vestir vezes sem conta apesar de nunca mais nos ter dado sorte desde aquele Verão de 93. Golden Boy.

Como a generalidade dos psicólogos, acredito que a maioria dos nossos comportamentos são vestígios de um comportamento que tínhamos em crianças. Nos homens é particularmente fácil fazer essa ligação à infância, até porque a maioria de nós ainda vive nela. Um homem sabe imediatamente se gosta de uma peça de roupa quando a veste e se consegue imaginar dentro do fato do Zorro, quando era miúdo. É o teste definitivo. A roupa certa eleva-nos a autoconfiança ao ponto de nos tornar num vingador de capa e espada, capaz de fazer frente aos porteiros do Lux ou insultar implacavelmente qualquer taxista que se atravesse à nossa frente.

Thursday, February 02, 2006

Mário Crespo, um Tributo

O Mário Crespo é a Sophia Loren da televisão portuguesa. Soube envelhecer sem se tornar um vestígio televisivo dos anos oitenta, imune à júlioisidrisação que atacou todos os outros apresentadores do seu tempo, que acabaram a apresentar o sorteio da Lotaria Nacional ou a anunciar trens de cozinha no TV Shop. Eládio Clímaco, Luís Pereira de Sousa, Serenella Andrade. Se tivessem partido, como o Carlos Paião ou o António Variações, todos os lembrariam com saudade. Continuando, são como aquelas fotografias antigas de quando éramos bimbos, que preferimos esconder no fundo da gaveta.

O Mário Crespo não lê as notícias, aliás raramente olha para o papel ou para o teleponto. Talvez seja mais consequência da miopia que estilo jornalístico, mas não deixa de ter o seu charme. Ele conta-nos uma história, devagar, docemente, sem pressa de chegar ao fim, pedindo licença para nos dar as notícias com as palavras dele. Se estivermos distraídos, ouvindo-o ao longe parece que subitamente Israel fez a paz com os palestinianos e que foi descoberta uma vacina para a Sida.

A apresentar o 60 Minutes, sente-se a sua paixão pela profundidade das notícias, pela investigação, pela verdade, como se tivesse estado lá no terreno e preparado exaustivamente todas as perguntas a fazer. Ele sabe do que fala. Mesmo que faça só uns trechos de ligação entre as reportagens da CBS, cumpre o papel com a dignidade que se impõe ao serviço cívico, diligente, sóbrio, eficaz.

Uma das grandes qualidades do Mário Crespo é a simplicidade de não precisar de mais do que dois nomes para se afirmar. Rodrigo Guedes de Carvalho, José Rodrigues dos Santos, José Alberto Carvalho, Fátima Campos Ferreira, Alberta Marques Fernandes. Que raio, até a Judite Sousa insiste em ser Judite de Sousa!

O Mário Crespo é o velho Panoramix das histórias do Asterix, o druida, o sábio, guardião da sua tribo. O nosso Walter Cronkite, Tom Brokaw ou Peter Jennings. Uma âncora da televisão portuguesa, um refúgio da histeria sensacionalista dos tempos, que pode não ter sempre as melhores notícias para nos dar, mas estará sempre lá para que possamos compreender e aceitar um pouco melhor o mundo em que vivemos, todos os dias.

Tuesday, January 31, 2006

Excentricidades

Eu não acredito no euromilhões. Não conheço ninguém que alguma vez tenha ganho sequer mais do que o 5º ou 6º prémio, pouco mais que vinte euros. Acho mesmo que nunca ninguém ganha o jackpot do euromilhões. Admito que o esquema está bem feito, bem publicitado, afinal a chave secreta parece estar todas as semanas à nossa frente, basta encontrarmos o caminho certo entre a caneta e o painel de números. Mas não, a mim não me enganam, o euromilhões é um embuste.

183 milhões de euros. Fiz as contas, e a não ser que tenha um valente aumento salarial na minha próxima avaliação de desempenho, para acumular a mesma quantia vou ter que trabalhar intensamente durante os próximos 7625 anos. Incluindo fins-de-semana.

É disto que o meu povo gosta. O entusiasmo desenfreado que se gera antes dos jackpots do euromilhões é a prova de que nunca ninguém está satisfeito com o que tem. Quando o jackpot são 73 milhões de euros, é ver a corrida aos balcões do euromilhões, filas intermináveis à hora do almoço e às sete da tarde de sexta-feira, colegas de escritórios a fazer poules de apostas, um industrial de Miranda do Douro a gastar cinco mil contos em cruzinhas e a rir-se bacocamente para a câmara da TVI enquanto dá calduços ao puto. Na semana seguinte, foi-se o prémio para a Irlanda, o primeiro prémio passa para 10 milhões e já ninguém liga. “Pois, o que me fazia mesmo jeito eram os 73 milhões de euros para dar uma volta à minha vida, agora 10 milhões, menina, oh isso vai-se num instante”. Pois sim, eu se ganhasse 10 milhões também não mudava a minha vida e continuava a ir na Vimeca para o meu T1 no Barreiro.

O euromilhões é um bilhete dourado ao estilo d’ “A Ilha”, um gigantesco farol construído para manter uma certa ordem e sanidade mental, acenando a todos a possibilidade real de nunca mais termos de trabalhar. Uma réstia de esperança. Uma forma de nunca nos habituarmos à ideia de ter que acordar cedo aos dias de semana, ao conceito de que tudo na nossa vida depende do esforço que pomos nas coisas. E é por isso que o euromilhões é um sucesso enorme em Portugal, não há português que não prefira depositar a sua sorte no jogo das panelas, na raspadinha, totoloto ou no jogo do galo do que na ideia de trabalhar para se sustentar.

Vão trabalhar, malandros!

Monday, January 30, 2006

A Vida antes da morte

A ideia da morte incomoda-me. Para além da questão metafísica, ou do pequeno calafrio que me provoca aquela possibilidade de nunca mais voltar a existir, o que me incomoda é todo o ritual. O verdadeiro problema com a morte é que é a coisa mais mórbida que há.

A morte dos comuns não tem nenhum sentido estético, nenhuma nobreza no modo como se entrega um corpo à terra. O caixão solene, uma fotografia demasiado recente, a retroescavadora no cemitério, as covas já abertas para a próxima dezena que está para chegar, as palavras fúnebres, mortuárias, funerárias. Tudo rima com defunto e finado, beatas e carpideiras. É uma cerimónia de dor, de angústia, uma despedida cinzenta pensada para amplificar a tristeza dos que ficam, esquecendo quem parte. Falta alma aos funerais.

Mário de Sá Carneiro dizia: “quando morrer, chamem palhaços e acrobatas”. Essa seria a única forma de celebrar condignamente a partida de alguém. Com a sua música preferida, os seus melhores momentos, as fotografias de férias e de infância, as anedotas que contava, o modo como se ria. Uma despedida alegre que celebrasse também a vida, feita das imagens e palavras que são muito mais eternas que nós.

Thursday, December 29, 2005

Ao Manel Alfredo

O homem é um animal social. Esta premissa filosófica estabelecida por John Locke no século XVII é ainda hoje geralmente aceite, excepto quando vamos à casa de banho, onde francamente nos sabe bem um pouco de sossego.

O homem vive e define-se em sociedade, aliás a maioria das nossas qualidades e defeitos são facilmente amplificados ou anulados pelas nossas aptidões sociais. Um tipo com uma inteligência claramente acima da média é completamente inútil para a sociedade quando se torna insuportável para todos os que o rodeiam. Ninguém gosta de ser gozado. Preferimos sempre ter por companhia pessoas relativamente inaptas no que toca a apreciar ópera ou recitar o alfabeto grego, desde que sejam bons compinchas de copos ou consigam contar até 10 num único arroto.

Vivemos em diferentes grupos e neles construímos a nossa memória e identidade. O nosso grupo de amigos de infância, o grupo da escola ou da universidade, o grupo do nosso primeiro emprego, cada um lembra-nos de como éramos nessa altura. Transitamos de um grupo para outro, e como um camaleão vamos subtilmente ganhando novas cores enquanto muda o nosso pano de fundo.

Há um momento precioso na vida de cada grupo em que se atinge a sintonia perfeita. Cada pessoa conhece bem o seu papel, há uma química estabelecida no relacionamento mútuo, uma linguagem própria e apertos-de-mão secretos. Trocamos alcunhas e damos alegremente calduços uns aos outros. Podemos ser os palhaços do grupo, o porreiraço ou o chonas, o gajo que manda as piadas ou o gajo sobre quem se contam piadas, mas temos sempre orgulho em fazer parte do grupo.

Por vezes essa harmonia perde-se, sem se dar por isso, porque alguém muda de emprego ou muda de cidade, porque um casal se separa, porque alguém deixou de ter tempo para dedicar à tribo ou porque a vida o mudou não apenas por fora. Todos os outros continuam, os mesmos, mas juntos já não são exactamente o mesmo. Perde-se o momentum do grupo, a zona de conforto, esse período dourado em que um grupo é muito mais que a soma das partes.

É assim em tudo. A equipa do Benfica dos anos 60, o elenco original do Ally McBeal, o grupo de amigos do colégio, a maioria dos grupos não resiste ao tempo e à mudança, deixam de se encontrar nas suas rotinas. Life goes on. Talvez tenham tido provas de fogo que não conseguiram superar. Talvez tenha havido um momento em que alguns cresceram demasiado depressa e deixaram de se rir das mesmas piadas.

Mas outros, como o elenco do Seinfeld ou do Friends, mantêm a magia, conseguem evoluir sem perder a espontaneidade, talvez porque se mantenham infantis depois de muitos anos que atravessam casamentos e primeiros filhos, ou talvez por saberem que é sempre melhor continuar juntos a ver como a vida nos muda.

Monday, December 12, 2005

Um dia no Estádio

Ir ao Estádio da Luz é muito mais do que ir ver futebol. É que boa parte do espectáculo passa-se nas bancadas, no meio daquilo que Gabriel Alves definiu como a moldura humana, aquele ambiente de circo romano onde o povo se encontra para descarregar as agruras do dia-a-dia e mandar as suas bojardas de fim de semana. No Terceiro Anel sentimo-nos em casa, sobretudo se a nossa casa cheirar a cerveja e arroto e toda a gente berrar uns com os outros, entre outras coisas que definem um lar feliz.

Na grande família do Estádio da Luz encontram-se pessoas que se entregam a uma mesma comunhão pondo de lado as suas diferenças, personagens ímpares e invulgares que se sentam ao lado de outras absolutamente normais.

O treinador de bancada
O verdadeiro treinador de bancada é normalmente um gajo com razoável bom senso, que tenta fazer valer as suas opiniões técnico-tácticas gritando indicações para o treinador durante os 90 minutos. Quando o Benfica está a perder, ele grita pelo Mantorras. Quando o Benfica está a ganhar, ele grita pelo Mantorras. O treinador de bancada nunca será um treinador a sério, porque lhe falta a originalidade e ousadia de ir para além do senso comum, sendo incapaz de rasgos como meter o Carlitos a titular contra o Sporting ou insistir no Michael Thomas como trinco de marcação.

O velho rezingão

O velho rezingão é o adepto jurássico que se lembra de ir ver jogos ao campo da Amoreira e de jogar às cartas com o Borges Coutinho. Fiel ao seu Benfica, assiste aos jogos com um misto de nostalgia e sofrimento, lamentando eternamente o Eusébio já não poder calçar as chuteiras e entrar em campo. Para o velho rezingão, não há nada como os bons velhos tempos do Coluna e do Jaime Graça, lateral direito como o Simões ou ponta-de-lança como o Torres. Parco em elogios às equipas do Benfica pós-anos 70, é difícil arrancar-lhe um sorriso durante o jogo, mas ele lá continua a ir todos os Domingos ao estádio para contar à malta como é que era.

O puto e o pai
A educação de uma criança faz-se destes momentos de cumplicidade entre pai e filho que só uma ida à bola proporciona. Vestido a rigor de boné e cachecol e com uma bandeira orgulhosamente hasteada na mão direita, o puto começa a gostar de futebol, aprende a saborear um bom courato e ouve os primeiros palavrões. Durante os jogos o puto não para de fazer perguntas sobre o fora-de-jogo e os nomes dos jogadores para desespero do pai, que volta e meia lhe enfia um tabefe para que o deixe sossegado a beber a sua Sagres. Mas lá fazem as pazes quando o puto diz “ó pai, o árbitro é filho da puta, não é?”, ao que o progenitor não consegue disfarçar uma pequena lágrima de orgulho.

O gajo-que-sai-mais-cedo
O gajo-que-sai-mais-cedo odeia trânsito, por isso chega três horas antes do jogo para ter lugar perto do Estádio e fazer a sua voltinha pela loja do Benfica. Como todos os adeptos, começa a ficar nervoso perto do final do jogo, não porque o jogo continua empatado e não há maneira de marcarmos um golo, mas porque “a esta hora a segunda circular deve estar um espectáculo”. No fundo basta-lhe sair cinco minutos mais cedo para chegar num instante ao carro e ainda ouvir o fim do relato, sem confusões. O único momento infeliz na vida do gajo-que-sai-mais-cedo é quando vai a descer a escadaria e ouve um bruá enorme a toda a volta, enquanto o Luisão marca o golo decisivo que deu o campeonato ao Benfica.

O mediático
O mediático é o Che Guevara dos adeptos, um sindicalista que não falha uma Assembleia Geral e que vai aparecendo nos momentos importantes da vida do clube. Toda a gente o conhece, já o viu nos telejornais e na capa d’A Bola apesar de não lhe conhecer o nome. O Benfica ganha ao Porto nas Antas, e lá está “o Barbas” a estender a bandeira ao Eriksson no aeroporto e a rezar a meca, discute-se em assembleia o financiamento do novo estádio e lá está “o-gajo-do-bigode” a dizer umas barbaridades incompreensíveis e a acabar cada frase com “Vivó Benfica! Vivó Benfica! Vivó Benfica!”. É o sonho do adepto anónimo.

O gajo-contra-o-mundo
O gajo-contra-o-mundo já está irritado antes do jogo começar. Anti-social por natureza, ele vem ao estádio para descarregar a sua raiva e insultar quem lhe aparecer à frente. Apesar de ser do Benfica, passa o jogo a chamar nomes aos jogadores e a incentivar a equipa contrária a marcar um golo, “para ver se aprendem a jogar à bola, seus c**** do c*******”. Se o Geovanni marca um golo no último minuto, deixa-se ficar sentado e diz “’tava a ver que falhavas, meu f**** da p****”.

O cómico
O cómico é um animal de palco, e o seu palco é o Terceiro Anel. Mais interessado em soltar umas gargalhadas do que em ver a sua equipa marcar golos, vai soltando umas piadas de caserna e animando a malta à volta. O cómico tem uma cultura acima da média e faz por isso comentários mais refinados sobre a prestação da equipa, como “Artur Jorge e se fosses mas é escrever poesia prá Sibéria”, “Carlitos troca as chuteiras” ou “ó Nuno Gomes vai prá Ismérnia!”.

A velhinha-no-carro
A velhinha-no-carro não é vista normalmente nas bancadas porque passa o jogo à espera do marido no carro, já que prefere ficar no sossego do Citroën BX a recuperar o atraso no crochet e fazer uns quantos Sudokus. É o exemplo perfeito da lealdade das mulheres à antiga, e a prova de como é bonito um casal partilhar um hobby em comum.

(Como é lindo o meu Benfica!)

Friday, December 02, 2005

Mrauk U, Birmânia



Muita gente questiona se se deve visitar a Birmânia (Myanmar), tendo em conta a opressão que a junta militar instalada pratica desde 1988. A própria Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, pediu que turistas se abstivessem de visitar o país, por parte do dinheiro acabar nas mãos dos opressores, por ser um potencial sinal de aprovação internacional, porque algumas das infraestruturas turísticas foram construídas com a mão-de-obra de trabalho forçado.

O site da Lonely Planet lista os pros e contras de visitar a Birmânia. Alguns dos "pros" são a possibilidade de contribuir para a melhoria das condições de vida das populações locais, a maior dificuldade que qualquer forma de poder terá de cometer atrocidades com o testemunho de visitantes estrangeiros, ou o peso que uma maior dependência do negócio do turismo poderá ter sobre a condução da política interna no futuro.

Decidir não visitar a Birmânia significa também deixar o povo birmanês definitivamente isolado, fechado ao mundo, não permitindo qualquer contacto com o mundo ocidental e uma certa ideia de liberdade.

E nunca ver in loco imagens como esta, em Mrauk U, antiga capital da Birmânia.